sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O lado negro do turismo com elefantes na Tailândia

Por: Jeanne Kim
Publicado no website de notícias da economia global Quartz, em 28 de Julho de 2014 

As candidatas a Miss Universo 2005 não captaram a mensagem. Foto: Darren Decker

Os folhetos de turismo da Tailândia mostram suas maravilhosas praias com águas límpidas e azuis, carrinhos coloridos de frutas frescas em mercados ao ar livre e elefantes caminhando pela selva com visitantes animados ​​em suas costas. Mas acontece que há um lado obscuro nesses passeios de elefante. 
A Tailândia é um dos 13 países da Ásia que comercializam elefantes asiáticos – a maioria do vizinho Mianmar –, para abastecer seu mercado de turismo. E um relatório recente descobriu abusos generalizados nessa indústria. 
O TRAFFIC, um grupo de fiscalização do comércio de vida selvagem controlado pelo World Wide Fund (WWF) e pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), divulgou os resultados de uma investigação sobre 108 centros turísticos de elefantes, hotéis e instalações governamentais examinados entre 2011 e 2013. Eles encontraram cerca de 80 elefantes nessas instalações que haviam sido capturados ilegalmente para a indústria do turismo. E entre aqueles cujas origens eram identificáveis​​, nove em cada 10 eram de Mianmar. Estimativas indicam que o número de elefantes em acampamentos turísticos na Tailândia é de 1.688 no total. 
No século passado, os elefantes asiáticos eram utilizados para extração de madeira e caçados por sua pele, sua carne e seu marfim. Mas, depois de o governo tailandês proibir o desmatamento em áreas protegidas, em 1989, não demorou muito para que os elefantes fossem utilizados como atração turística, o que se tornou um novo motivo para o comércio ilegal desses animais. Para prepará-los para o trabalho, eles são arrancados de suas famílias ainda jovens e entregues aos treinadores, que “quebram seus espíritos”,  acorrentando-os e privando-os de comida e água, diz o relatório da TRAFFIC. Eles são constantemente espancados com varas de bambu para se tornarem criaturas dóceis e controláveis​​. 
O Thai Elephant Conservation Center, criado pelo governo, refuta as denúncias dos abusos descritos: "A maioria dos elefantes tailandeses é muito bem cuidada, em parte porque a maioria dos tailandeses é de natureza amável e humana, mas também porque os elefantes são simplesmente valiosos demais para serem maltratados.” Em fevereiro de 2012, o governo tailandês apertou o cerco ao comércio ilegal de elefantes, o que parece ter parado a maior parte dele. Ainda assim, a TRAFFIC conclui que "não se pode descartar a chance de o tráfico ainda estar ocorrendo". Afinal, um elefante bebê saudável está atualmente avaliado em 33.000 dólares, e o número de visitantes na Tailândia está prestes a aumentar para 28 milhões em 2014, contra 26,7 milhões em 2013
Claro que alguns fracassos internos, como o golpe deste ano na Tailândia, colocaram um freio no turismo do país. O número de turistas caiu quase 5% entre janeiro e abril deste ano. Mas passeios de elefante, no entanto, não mostram nenhum sinal de perder seu apelo: o turismo usando esses animais segue forte na Índia, no Camboja e no Laos. 

Link para o artigo original em Inglês.

Saiba mais no website da ElephantVoices: "The ugly truth about elephant back rides" ("A terrível verdade sobre os passeios em elefantes"). 

Tradução, revisão e edição: Simone Frattini, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado. 



terça-feira, 15 de julho de 2014

O significado dos chamados dos elefantes

Uma das características de comportamento fundamentais dos elefantes é sua natureza de demonstrar seus sentimentos e desejos. Expressões de satisfação, raiva, tolice e de total indignação, por exemplo, são vistas frequentemente. Os elefantes são, essencialmente, bastante expressivos e dramáticos. Por exemplo, se um membro da família sente-se ofendido, familiares e amigos correm até ele, para comentar, concordar e dar apoio emocional e também assistência física, se necessário. 

Os elefantes vocalizam em uma ampla gama de situações. Fazem isso para anunciar estados emocionais ou hormonais, alertar e intimidar outros elefantes, demonstrar emoções fortes, expressar seus desejos ou necessidades, propor, negociar ou discutir um plano de ação, coordenar a movimentação do grupo, assegurar a defesa do mesmo, cuidar dos filhotes, solicitar cuidados ou apoio, reforçar laços entre familiares e amigos, reconciliar diferenças e defender dominância. Elefantes comunicam-se uns com os outros usando uma variedade de tipos de chamados e, entre esses, sub-tipos, ou o que chamamos de “tipos baseados em contextos”.
Neste artigo ilustrado publicado pela National Geographic, você pode ler mais sobre os estudos da comunicação dos elefantes conduzidos pela Diretora Científica da ElephantVoices, Dra. Joyce Poole, e as gravações e bancos de dados organizados por ela e por Petter Granli, codiretor da ElephantVoices. 

O Significado dos Chamados dos Elefantes - Um Guia do Usuário

Publicado na National Geographic
Por Christy Ullrich Barcus
Ilustrações por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño; Áudio por Joyce Poole e Petter Granli, ElephantVoices
Os elefantes usam uma variedade de sons para se comunicar, desde poderosos rugidos a grunhidos de baixa frequência. Os sons emitidos por eles também incluem fungadas, latidos, grunhidos, barridos, bramidos e até imitações de sons. Esses sons são dicas cruciais para a sobrevivência de uma família de elefantes. A bióloga especializada em elefantes Joyce Poole, da National Geographic Explorer, juntamente com o codiretor da ElephantVoices, Petter Granli, gravou milhares de sons de elefantes.
Eles dividiram esses sons em várias categorias, ou “tipos de sons” (ex: grunhidos versus bramidos), e os inseriram em um banco de dados (elephant acoustic database) e, com base no contexto de comportamento, entonação e duração, interpretaram os significados das pequenas diferenças entre cada tipo de chamado, criando um banco de dados de chamados classificados por tipo de contextos.
“O que é realmente notável a respeito dos elefantes é o fato de eles trabalharem em equipe de forma extraordinária”, diz Poole. “Para que uma família de elefantes possa sobreviver, especialmente a predadores inteligentes como os humanos, é importante que eles se mantenham unidos e ajudem uns aos outros. Como parte desse esforço em equipe, eles desenvolveram uma comunicação complexa.”
Acesse o arquivo original enquanto você lê este artigo, para poder acionar os botões de “tocar” (play) e “pausar” (pause), escutando, assim, os sons relacionados. Recomenda-se o uso de fones de ouvido. 
Clique aquihttp://www.nationalgeographic.com/news-features/what-elephant-calls-mean/ para abrir uma nova janela e escutar os sons no arquivo original, enquanto lê este artigo traduzido.

Quando uma aliá (ou elefanta) propõe: “Quero ir para este lado; vamos juntos”, ela diz “vamos” com o som de um grunhido.
A aliá usará seu corpo para apontar na direção em que pretende ir, às vezes também levantando sua pata. Em intervalos de poucos minutos, ela faz o que Poole descreveu anteriormente como um grunhido que significa “vamos”, ao mesmo tempo em que abana suas orelhas. Nesta gravação, uma jovem fêmea faz o chamado do “vamos” 12 vezes dentro de um período de quase meia hora, para encorajar o grupo a tomar o rumo do pântano. “Os elefantes têm planos de ação que são bem separados de sua linguagem corporal e sons. Eles podem discutir, negociar ou até concordar em discordar.”
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

Isso poderá acarretar em uma separação temporária na família, mas será apenas uma boa desculpa para que, depois, eles se reúnam com uma cerimônia de saudação.
A cerimônia de reencontro ou saudação é a chave para cimentar os laços em uma família de elefantes. Os elefantes vocalizam um som de saudação enquanto elevam suas cabeças, movimentam vigorosamente suas orelhas e tocam os membros de suas famílias com suas trombas. Eles soltam secreções por suas glândulas temporais, urinam e defecam. Às vezes, eles demonstram seu entusiasmo em estarem juntos novamente batendo suas presas e rodando, como se estivessem fazendo piruetas.
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

Essas cerimônias solidificam os laços de equipe necessários para uma família de elefantes se defender de predadores como leões ou humanos.
Os elefantes utilizam sons suaves e grunhidos para alertar sua família ampliada (que abrange não apenas elefantes com laços de sangue) sobre a presença de guerreiros Maasai e podem também emitir um rugido autoritário ou um bramido retumbante para intimidar um leão à espreita. Nesta gravação, um leão ataca um bebê elefante. O bebê grita, e imediatamente sua mãe e outras fêmeas adultas correm a seu encontro. Elas promovem uma espécie de “tumulto coletivo” (mobbing tactics), emitindo grunhidos poderosos, tipo rugidos, para espantar o leão. No meio de toda essa comoção, um jovem elefante brame e um adulto solta um bramido retumbante ameaçador.
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

Até o acasalamento é assunto da família mais próxima, durante o qual os elefantes jovens aprendem comportamentos vitais para seu sucesso reprodutivo no futuro. 
Os machos têm um período sexualmente ativo ao qual chamamos de “musth”, que dura meses. Já as fêmeas estão receptivas apenas por poucos dias. Durante o período do “musth”, os machos vão à procura das fêmeas, enquanto demonstram um estado sexual vigoroso e agressivo, com comportamentos típicos, secreções e um grunhido pulsante típico desse período, que é feito enquanto ele move uma orelha por vez. Uma fêmea que esteja receptiva (no cio) irá soltar secreções por suas glândulas temporais, urinar e fazer uma série de poderosos grunhidos depois do acasalamento, para atrair a atenção de qualquer outro macho que esteja em posição mais elevada no ranking e a alguma distância, como se pode ouvir aqui. Os membros da família somam suas vozes à dela, fazendo uma cacofonia de chamados, numa espécie de “pandemônio do acasalamento”.
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

A proteção e cuidado extraordinários que a mãe proporciona a seu filhote formam os comportamentos e relacionamentos fundamentais que mantêm uma família unida.
Quando um elefante bebê está faminto, ele faz um grunhido insistente e anda em paralelo a sua mãe, levantando sua tromba, a fim de que possa acessar o leite de seu peito. Quase sempre, as mães pararão de andar e colocarão uma perna para frente, a fim de deixar seus bebês mamarem. 
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño
No entanto, até as mães aliás devem ser firmes com seus bebês na época de desmame.
Se a um filhote é negado o acesso ao peito, como pode ser ouvido nesta gravação, ele poderá aumentar sua exigência, combinando um choro com um bramido, produzindo, dessa forma, um “choro retumbante”. Caso isso não funcione, a demanda do filhote poderá escalar para um rugido.
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

Ainda assim, se um bebê elefante está realmente incomodado ou estressado, sua mãe, juntamente com a família toda, dará toda a atenção a ele, e todos se reunirão em torno dele para oferecer conforto.
A mãe de um filhote, assim como também as fêmeas jovens ou tias, agrupam-se em torno dele para oferecer consolo, tocando em sua boca, sua barriga, seus genitais e, ao mesmo tempo, emitindo sons tranquilizantes suaves, como bramidos retumbantes. Nesta gravação, um filhote ruge quando sua avó o chuta ao tentar afastá-lo de seu recém-nascido, que fora atacado por hienas no início do dia. O rugido do filhote chama imediatamente a atenção de sua mãe, que sai correndo do pântano e vai a seu encontro para consolá-lo. O filhote responde ao consolo da mãe com o que Poole chama de um “baroo” retumbante, que significa: pobre de mim, fizeram-me muito mal.
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

Esse cuidado auxilia no desenvolvimento de suas personalidades, que podem ser observadas, por exemplo, durante a recreação, que é quando eles andam e correm livremente pela natureza, a esmo, emitindo sons de trombetas.  
Os elefantes gostam de relaxar e brincar. Eles trotam alegremente e de forma desengonçada, de cabeça baixa, balançando suas trombas, com a cauda elevada, fazendo sons brincalhões pulsantes e nasais, semelhantes a trompetes. Segundo Poole, em várias ocasiões os elefantes fingiram atacar seu carro, enquanto emitiam sons de trombetas e, em seguida, fingiam tropeçar e cair, tudo de forma muito brincalhona.
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

*Para saber mais sobre a comunicação acústica dos elefantes, entre em contato com a cientista em info@elephantvoices.org e peça o capítulo de Joyce Poole sobre comportamento e comunicação dos elefantes ("Joyce Poole’s chapter about elephant behavior and communication").
Poole, J.H. 2011. Behavioral contexts of elephant acoustic communication In: The Amboseli Elephants: A Long-Term Perspective on a Long-Lived Mammal. Moss, C.J., Croze, H.J & Lee, P.C. (Eds.) University of Chicago Press.

Link para o arquivo original da National Geographic.

Tradução, revisão e edição:  Carla Antunes, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Serão os elefantes quase humanos?

Por: Sarah Abraham
Publicado em 23 de Maio de 2014 em The Indian Republic

Elefante africano (Foto: The Indian Republic)
Humanos, aprendam com os elefantes a ter empatia

Aristóteles tinha grande consideração pelos elefantes. Ele dizia que eles “ultrapassavam todos os outros em capacidade mental e intelecto”.
Quando pensamos em animais inteligentes, pensamos em primatas. Isso provavelmente porque sempre estivemos acostumados a considerar os humanos como os mais inteligentes - então, pensamos que os primatas, nossos ancestrais, vêm em segundo. Mas não levamos em conta algo chamado “evolução convergente”. Para simplificar um pouco o que diz a ciência, isso indica que diferentes ramos evolutivos podem encontrar destinos similares. O fato de primatas serem inteligentes o suficiente para usarem ferramentas não significa que outro ramo evolutivo - paquidermes - não possa ser tão inteligente quanto. Também são inteligentes os golfinhos, claro, mas os elefantes, ao contrário dos golfinhos, que matam toninhas como diversão, são, além de tudo, gentis.
Eles realmente se lembram.
O que se diz sobre a memória dos elefantes é verdade. Eles têm excelente memória de longo prazo. Não têm a visão muito boa, mas ainda assim parecem não se esquecer de um rosto. Veja, por exemplo, o que ocorreu no Santuário de Elefantes do Tennessee, na chegada de uma nova elefanta chamada Shirley. Uma elefanta em particular, Jenny, ficou muito excitada e foi quase impossível mantê-la a alguma distância. Mas não se tratava de agressão - quando, finalmente, chegaram perto uma da outra, a cena pareceu muito mais com um encontro de velhas amigas depois de muito tempo, uma procurando cicatrizes na outra com sua tromba e muitas vocalizações. Os observadores, confusos, examinaram o passado de Shirley e descobriram que 23 anos antes elas haviam estado juntas no mesmo circo. Não apenas se lembravam uma da outra, como tinham uma ligação que não havia se rompido com o tempo.
Eles formam laços muito fortes uns com os outros
Os laços entre Shirley e Jenny não eram fora do comum. Elefantes geralmente formam unidades familiares matriarcais, que são costuradas de modo muito forte. Cada bebê que nasce é cuidado pela manada toda. Cynthia Moss, etologista especializada em elefantes, escreveu em seu livro sobre um incidente. Caçadores ilegais atiraram em duas elefantas da manada. Uma delas morreu, e a outra, atingida, ainda ficou em pé. Duas das elefantas da família (a mãe da elefanta ferida e um outra) foram até a elefanta ferida e tentaram segurá-la em pé. Quando ela acabou se ajoelhando, elas tentaram levantá-la. A elefanta ferida morreu, mas as outras ainda tentaram ajudá-la - com a tromba, a mãe tentou levantar seu corpo inerte. 
Quando tornou-se óbvio que ela havia morrido, elas a enterraram em uma cova rasa, cobrindo-a com folhas. Ficaram com ela a noite toda e, pela manhã, foram embora. A mãe foi a última a sair. Ah, e os caçadores que haviam atirado nas elefantas haviam sido afugentados pelo resto da família. Até mesmo esses três mosqueteiros puderam aprender sobre esse tipo de intimidade familiar.
Elefantes sentem grande empatia
Já falamos sobre como os elefantes formam fortes laços uns com os outros, que não se rompem com o tempo. Eles amam uns aos outros e sentem grande luto e desespero quando morre um membro da família, como tem sido observado por seu comportamento e linguagem corporal - eles até mesmo choram bastante seus mortos. E eles também têm ritos para o funeral, exatamente como nós.
Mas a compaixão dos elefantes não é limitada à sua própria espécie. Eles mostram grande empatia e se desviam de seu caminho para não machucar  nenhum animal ou pessoa. Há registros de casos em que os elefantes se recusaram a obedecer ordens que poderiam resultar em ferimentos a alguém ou a algum animal – como se recusar a derrubar um tronco de árvore se houvesse um animal sob ele. Também houve casos em que elefantes ficaram ao lado e cuidaram de pessoas feridas que estavam sozinhas, até que estas fossem encontradas por outras pessoas. 
É extremamente raro para um elefante atacar alguém, exceto durante o período de cio dos machos, quando eles se tornam extremamente comandados pela testosterona - e violentos. A maioria dos outros incidentes de violência ocorreu porque os elefantes foram repetidamente maltratados por pessoas, muito além de qualquer nível de tolerância humana. Esses incidentes são, geralmente, uma prova condenatória da maldade humana, não do comportamento dos elefantes.
Elefantes e arte
Quando se considera o expressionismo abstrato, os elefantes podem estar fazendo um trabalho melhor do que as pessoas. Há artistas célebres entre os elefantes cativos, dos quais um dos mais famosos é Ruby. Ruby segura seu pincel com sua tromba e dizem que ela mostra uma conhecimento aguçado sobre diferentes cores e sobre a sequência em que ela gostaria de aplicá-las na tela. Guiados pelos treinadores, os elefantes podem frequentemente também pintar objetos identificáveis. Dizem que os elefantes também podem reconhecer diferentes melodias e músicas. Shanthi, outro elefante, tocou gaita.
A vida e o crescimento de um elefante espelha-se na vida e no crescimento dos humanos. Filhotes de elefantes precisam da mesma quantidade de cuidados, ainda que possam caminhar muito antes que os bebês humanos possam fazê-lo. Eles crescem aproximadamente no mesmo ritmo, tornando-se totalmente adultos por volta dos 20 anos. Sua longevidade é de cerca de 70 anos, como os humanos. Seguindo as atuais evidências, diríamos que eles são capazes de sentir mais empatia do que os humanos - eles nunca tentaram roubar dentes bonitos de bocas humanas, para depois abandonar esses humanos à morte, enquanto que os humanos parecem determinados a caçar elefantes até sua extinção, por causa de suas presas. Quem são os reais montros aqui?
- Veja mais em: http://www.theindianrepublic.com/quirky-corner/elephants-almost-human-100036992.html#sthash.MTCuR0eB.dpuf

Leia também: Elefantes são Quase Humanos, publicado em 1966 por Brian O'Brien.

Tradução, revisão e edição:  João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Epidemia de rapto de bebês elefantes atinge o Sri Lanka, afirmam conservacionistas

Por:  Shreya Dasgupta 
Publicado em 21 de Maio de 2014 em mongabay.com

No Sri Lanka, um secreto crime organizado contra a vida selvagem tem sido lentamente conduzido. E um incidente ocorrido recentemente o trouxe à tona. 

Na noite de 1 de Maio, uma gangue tentou raptar um bebê elefante no Uduwalawe National Park. No entanto, alertados por moradores de vilarejos vizinhos, a polícia e oficiais da agência de proteção à vida selvagem fizeram com que o sequestro não tivesse êxito. A gangue escapou, mas não antes de ter supostamente assaltado um jornalista e levado sua fita de vídeo, com a filmagem da discussão daquela noite (assista à videorreportagem em link final deste artigo). O filhote foi encontrado no dia seguinte, perto do Parque Nacional. Mas muitos outros filhotes de elefantes sequestrados não têm tido tanta sorte assim.

Filhote de elefante confiscado pelos oficiais em Mirigama.
(Foto: Nadika Hapuarachchi)
Ambientalistas do Sri Lanka estimam que pelo menos 50-60 filhotes de elefantes tenham sido roubados da natureza desde 2011. Eles dizem que parece haver gangues altamente organizadas atendendo aos interesses de pessoas muito ricas e poderosas, com conexões com alguns políticos, oficiais da agência de vida selvagem e instituições religiosas.

Os sequestros de filhotes de elefantes têm ocorrido já há algum tempo. Apenas recentemente, entretanto, as pessoas foram impelidas a agir. Cerca de dois anos atrás, ambientalistas e ativistas do bem estar animal no Sri Lanka começaram a notar que o número de filhotes de elefantes em cativeiro era inconsistente - ele parecia aumentar, a despeito do baixíssimo número de nascimentos.

Um ano depois, um livro de registro de todos os elefantes cativos no Sri Lanka, mantido pelo Departamento de Conservação da Vida Selvagem, desapareceu misteriosamente.

“Muitos ambientalistas começaram a se mexer e a prestar atenção nisso, e descobriram que havia muitas discrepâncias entre as permissões emitidas e os elefantes que estavam sendo mantidos em cativeiro”, disse Prithiviraj Fernando, cientista no Centro de Conservação e Pesquisa do Sri Lanka, segundo o mongabay.com.

Para agravar ainda mais o suspeito processo de registro dos elefantes cativos, o Ministro da Conservação da Vida Selvagem do Sri Lanka decretou uma controversa anistia. De acordo com essa anistia, pessoas que possuam ilegalmente elefantes podem simplesmente pagar um milhão de Rúpias (U$ 7,6 mil ou R$ 16,8 mil) para legitimar sua posse. 

“Esta anistia, portanto, proporciona uma ‘carta branca’ para a captura ilegal de elefantes, e o subsequente pagamento de um milhão de Rúpias para legalizar o processo”, disse Srilal Miththapala, ativista de elefantes e da vida selvagem e ex-presidente da Associação de Hotéis do Sri Lanka. "Acho que essa controvérsia alimentou a escalada da captura ilegal de elefantes jovens nos últimos anos". 

O modo de agir das gangues parece muito especializado. Alguns especulam que esses grupos dão tranquilizantes aos bebês alvo e dão tiros para o ar para afugentar o restante da manada. De acordo com outros, esses grupos simplesmente matam a mãe para capturar o filhote.

Mas enquanto a estimativa atual de capturas ilegais é de 50-60, o número real de filhotes sequestrados da natureza pode ser muito maior.

“Capturar bebês da natureza em segredo, mantendo-os escondidos longe da floresta até que possam ser transportados clandestinamente por algum veículo, e mantê-los de modo sigiloso até que estejam subjugados, sem nenhum cuidado ou local adequado, provavelmente causa muitas mortes entre esses filhotes”, afirmou Fernando. “Portanto, na realidade, os números de elefantes roubados da natureza podem ser de 2 a 3 vezes mais altos do que o número de sobreviventes”.

E então, o que acontece com os filhotes capturados?

A venda e o aluguel de elefantes é um negócio muito lucrativo no Sri Lanka. Os filhotes capturados ilegalmente são vendidos em mercados clandestinos, frequentemente atraindo mais de 10 milhões de Rúpias (U$ 76 mil ou R$ 170 mil). E, uma vez vendidos, eles são, em sua maioria, alugados para festivais religiosos, desfiles e atividades turísticas, por cerca de 15 mil a 20 mil dólares por mês (R$ 33 mil a R$ 44 mil).

“No Sri Lanka, possuir elefantes é como ter uma Mercedes ou uma Ferrari”, disse Vimukthi Weeratunga, ativista da vida selvagem no país. “As pessoas associam a posse de elefantes a grande riqueza”. 

Perturbados com o incidente de 1 de Maio, Weeratunga e diversos outros ambientalistas se encontraram recentemente para discutir o problema. A reunião teve como foco a falta de transparência do Departamento de Conservação da Vida Selvagem, a organização das permissões e o confisco de elefantes ilegais.

Bebê elefante encontrado perto de Galgamuwa pouco antes de ser colocado em um caminhão, com as quatro patas amarradas. Graças a comunidades vigilantes nas proximidades, este bebê foi solto e se juntou à sua manada. (Foto: Vimukthi Weeratunga).
“Quando começamos a olhar para esse problema, não imaginamos que seria tão complicado”, afirmou Weeratung.”Mas logo percebemos que temos que lutar em muitas frentes diferentes, incluindo políticos. A mídia tem, seja como for, nos dado muito apoio, e o problema agora está no Parlamento”. 

A legislação de fauna e flora torna ilegal matar um elefante no Sri Lanka. Capturar ilegalmente um elefante representa uma multa de U$ 1,4 mil a U$ 4,5 mil (R$ 3 mil a R$ 10 mil) ou de dois a cinco anos de prisão, ou ambos. Porém, pessoas “influentes” continuam a proteger os envolvidos no crime organizado.

“É uma situação frustrante, onde há recursos legais adequados para se tomar atitudes contra esse problema, mas também há grandes e complexos obstáculos no atual contexto da estrutura administrativa. Acredito que a opinião pública intensiva e o debate possam criar mudanças”, disse ainda Miththapala.

O Sri Lanka sempre teve uma população de elefantes consideravelmente grande, bem como a maior densidade de elefantes asiáticos selvagens no continente. Com a crescente perda e fragmentação de habitat, humanos e elefantes estão em conflito constante, devido à invasão das plantações em busca de alimentos e à destruição de propriedades, o que resulta em mortes, tanto de humanos como de elefantes. Os raptos de filhotes de elefantes podem, simplesmente, intensificar esse conflito. 

“Atualmente, cerca de 250 elefantes morrem por ano no Sri Lanka devido ao conflito entre humanos e elefantes (HEC, ou human-elephant conflict),” afirma Fernando. “Uma quantidade adicional significativa morre de fome dentro de áreas cercadas depois de serem conduzidos até lá, e por contato com cercas elétricas em tentativas mal conduzidas de minimizar o HEC. Então, se somarmos a isso uma grande quantidade de bebês sendo removidos da natureza, isso se torna um problema de conservação dos mais importantes.”




Leia texto original em http://news.mongabay.com/2014/0521-dasgupta-elephant-calf-kidnapping.html#3bixSWJZZ1IvESmw.99

Leia também sobre a crise dos elefantes no Vietnã. 

Tradução, revisão e edição:  João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Caçadores Massacram Dúzias de Elefantes em Importante Parque Africano

O Garamba National Park está sob ataque de caçadores, possivelmente do grupo terrorista Lord's Resistance Army.

Por Bryan Christy
Publicado em 13 de maio de 2014

Patrulheiros anti-caça protegem a vida selvagem no Garamba National Park,
na República Democrática do Congo
(Fotografia de Frans Lanting, National Geographic Creative)

Um dos mais antigos parques nacionais da África anunciou nesta terça-feira que tem sido atingido por uma onda incomum de ataques por caçadores de elefantes armados. Dúzias de carcaças foram encontradas e três suspeitos foram mortos.

Garamba National Park, um parque remoto de quase 500 mil hectares na República Democrática do Congo, soltou um alerta urgente na terça-feira, de que tem sido atacado por caçadores vindos de uma área conhecida por abrigar o grupo terrorista Lord's Resistance Army.

De acordo com o African Parks Network (APN), ONG que gerencia o Garamba, em acordo com o Instituto Congolês de Conservação da Natureza, 33 carcaças de elefantes foram descobertas até agora. A maior parte parece ser de elefantes mortos em abril, mas dez carcaças foram descobertas na sexta-feira, com as presas removidas.

A caça ilegal na África Central, a região mais instável do continente, tem sido a fonte do marfim que deixa o continente através de seus principais portos, incluindo os do Quênia, da Tanzania e do Togo.

A APN afirma que durante o final de semana suas equipes anticaça conseguiram capturar um grupo de oito caçadores, dos quais três foram mortos. Um segundo grupo de caçadores escapou. Os esforços anticaça prosseguem.

Pode-se se dizer que os ataques no Garamba adquiriram um perverso caráter sazonal. Este ataque vem exatamente dois anos depois de outro ataque significativo no Garamba, que deixou duas dúzias de elefantes mortos, e de outro incidente atribuído ao Lord's Resistance Army no ano passado.

Buracos à bala no topo das cabeças dos elefantes durante o incidente de 2012 indicaram que os animais tinham sido atingidos do ar, reforçando alegações de que eles foram mortos pelos helicópteros militares de Uganda.  

Em 2009, um ataque do LRA no Garamba deixou pelo menos oito pessoas mortas.

O Rio Garamba segue seu curso através dos pastos do
Garamba National Park (Fotografia de Nigel Pavitt, John Warburton-Lee Photography/Corbis)
Possíveis links terroristas

Em seu comunicado distribuído hoje, o chefe executivo da APN, Peter Fearnhead, escreveu: “Embora não possamos confirmar a fonte do perigo, temos razões para acreditar que a principal pressão de caça ilegal emana de uma área de densa floresta a oeste do parque - um setor de caça chamado Azande Domaine de Chasse. Azande tem sido uma base tradicional para o Lord's Resistance Army (LRA) por muitos anos, mas ainda não podemos confirmar se os ataques atuais de caça vêm do LRA, de gangues de caça sudanesas, de caçadores locais congoleses, ou de uma combinação deles. O nível extremamente elevado de caça ilegal sugere um grupo organizado ou grupos de caçadores focando seus esforços no Garamba."

Garamba é o lar de cerca de 2 mil a 3 mil elefantes, uma das maiores populações de elefantes remanescentes na África Central.  É também o lar de muitas outras espécies, incluindo hipopótamos, leões e búfalos. O parque fica na borda do Sudão do Sul, de onde grupos de caçadores armados têm aterrorizado os países vizinhos.

Saiba mais: assista à videorreportagem de Bryan Christy para a Getty Images, Marfim de Deus, e conheça as raízes e os bastidores do comércio internacional de marfim e seus efeitos sobre as populações de elefantes.

Tradução, revisão e edição:  João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Elefantes são Quase Humanos

Reproduzimos aqui um artigo muito interessante publicado originalmente em um livro de 1966com curiosos relatos sobre o comportamento de elefantes em diversas ocasiões e em diferentes países. Os estudos científicos sobre os elefantes evoluíram bastante desde então, mas é inegável que sua inteligência, memória, astúcia, empatia, senso de humor e sociabilidade já eram reconhecidos há quase cinco décadas atrás. 

Elefantes são Quase Humanos
Por: Brian O'Brien
Publicado originalmente no livro: "Maravilhas e Mistérios do Mundo Animal" - Seleções do Reader's Digest, Rio de Janeiro, Brasil, 1966


Um elefante africano macho do tipo gigante pode pesar até sete toneladas. Suas presas são seus dentes incisivos; crescem enquanto ele vive, tornando-se pesadas demais mesmo para um animal do seu grande porte, quando não são desgastadas pelo uso.

No Parque Nacional Rainha Elizabeth, de Uganda, o Superintendente R. C Bere e eu atravessávamos uma planície, de automóvel, uma bela tarde, quando avistamos um grupo de elefantas com seus filhotes. Olhando ao redor, elas abanaram as orelhas, e foi como se não nos tivessem visto, de modo que Bere parou o carro para que eu pudesse fotografá-las. De repente, a maior de todas esticou as orelhas, sacudiu malévola a cabeça e, rugindo desafiadoramente, avançou. Deteve-se a menos de seis metros de onde estávamos.

- Por que isso? – indaguei. – Ela estava tão calma!

- Talvez se tenha zangado ao ver os carros do safari - respondeu Bere. – Pode ser também que tenha comido algo que lhe fez mal. Ou foram os mosquitos; às vezes eles enlouquecem os elefantes. Nunca se pode saber o que os elefantes farão. Eles são imprevisíveis... como as pessoas.

Bill Ryan, veterano caçador de Ker & Downey, a famosa firma de Nairóbi, no Quênia, especializada em organizar safaris, observa os elefantes há mais de quarenta anos.

- Eles imaginam coisas, como nós - disse-me. – E às vezes são mais espertos. Num dos nossos acampamentos fixos, um bando de elefantes costumava invadir a horta. Levantamos uma cerca. Atravessaram-na. Ligamos então a nova cerca ao gerador, eletrificando-a. Bastaram algumas noites para que os elefantes percebessem que, quando as nossas luzes se apagavam, a corrente deixava de passar pela cerca - e lá se foi de novo a cerca. Mantivemos o gerador ligado a noite inteira. Mas os paquidermes continuaram por ali, brincando com o fio, até que um deles descobriu que suas presas eram maus condutores de eletricidade. Acabamos tendo de colocar sentinelas armados para mantê-los afastados do campo. 

Quando as cabanas para visitantes do Parque Nacional das Quedas Murchison estavam sendo construídas em Paraa, em Uganda, os carpinteiros eram constantemente afugentados do seu serviço por um elefante de três toneladas e meia conhecido como o Prefeito de Paraa. Era como se o elefante considerasse aquela área seu domínio privado; e mesmo depois de acabadas as cabanas ele prosseguiu no patrulhamento, detendo-se gentilmente para se deixar fotografar. Uma bela noite ele farejou pombe, uma cerveja que os nativos faziam de bananas fermentadas, e arrancou o teto de uma cabana para descobrir as frutas de infusão. Não tardou que passasse a procurar bananas em todos os automóveis que chegavam a Paraa. Se era um conversível, ele rasgava a capota para alcançar as frutas; os sedans ele revistava pelas janelas, quando não erguia o carro no ar e o sacudia.

Perto de Amboseli, umas das reservas nacionais do Quênia, vivia um elefante que tinha senso de humor. Gostava de ficar de tocaia numa curva apertada do caminho até aparecer um automóvel. Então investia, as orelhas em pé, com um guincho ensurdecedor. Contentando-se com aterrorizar todas as pessoas que vinham no carro, recuava e ficava a vê-las passarem com evidente cintilar nos olhinhos marotos.

No Parque Nacional Rainha Elizabeth, onde milhares de elefantes podem ser vistos pelos visitantes em perfeita segurança, desde que obedecidos os regulamentos do parque, tive ocasião de ver uma cena de amor entre elefantes. Um dia, eu e o Superintendente Bere observávamos um bando que pastava numa encosta, sobre o Lago Eduardo, quando um belo macho ainda jovem emergiu do seu abrigo, a cerca de duzentos metros do grupo. Quase imediatamente uma fêmea se desgarrou do bando, volvendo a cabeça timidamente de um lado para o outro, enquanto caminhava ao encontro dele. Quando seus olhos se encontraram, o macho envolveu a tromba da aliá na sua, e suas cabeças se ergueram, as trombas enlaçadas, até que suas bocas se tocaram num inconfundível beijo. Depois, a elefanta começou a dar cabeçadas no macho, de brincadeira. O macho arrancou um tufo de grama com a tromba, sacudiu-o de encontro aos joelhos, para limpá-lo, e ofereceu-o à fêmea. Esta o enfiou na boca, e lá se foram os dois, os ombros se tocando, só se detendo para trocarem beijos, até desaparecerem numa moita.

- Há mais de uma semana que eles estão de namoro firme - comentou Bere. – E continuarão namorando-se até a fêmea entrar no cio. Então, numa clareira remota - porque os elefantes, como as criaturas humanas, preferem o amor na intimidade - ela corresponderá de bom grado aos galanteios.

O casal se mantém junto o dia inteiro, nas imediações do bando, e à noite se esgueira para dentro da floresta, prosseguindo no romance, até que a fêmea emprenha e perde o interesse pelo companheiro. Alguns meses depois a fêmea procura a companhia de uma elefante mais velha, que zelará por ela quando nascer o filhote; o período de gestação é de aproximadamente 21 meses. A “titia” permanece de guarda, avançando furiosamente contra quem quer que se aproxime enquanto o filhote está nascendo. O filhote pesa uns 60 quilos, e poucos minutos depois de nascer já consegue sustentar-se nas pernas ainda bambas. A dedicação dos elefantes pelos seus filhotes é, comovedoramente, quase humana. Transportam-nos quando passam por água, arrancam as vergônteas altas demais para que eles alcancem e, quando preciso, castigam-nos por desobediência.

Uma tarde eu e Bere estávamos apreciando um bando de quatro elefantas com cinco filhotes às margens do Canal Kasinga, que liga o Lago Eduardo ao Lago George. Quando um dos filhotes, pequenino e gorducho, se afastou para a margem do canal, umas das fêmeas deu um grito de advertência. O elefantezinho não lhe deu atenção, prosseguindo ao longo da margem como um meninozinho a ver quão perto da borda poderia chegar. De repente a terra cedeu sob as suas patas e, com um grito lancinante, ele caiu dentro da água.

As elefantas grunhiram, de orelhas em pé, e no mesmo instante se precipitaram para o canal, estendendo as trombas solícitas. Porém o elefantezinho, lutando para não submergir, estava aterrorizado demais para se agarrar às trombas que se lhe ofereciam. Duas das fêmeas se ajoelharam na margem, trombas no ar, enquanto as outras duas entravam cuidadosamente dentro da água. Entre aquelas, grunhindo para encorajar o filhote que espadanava, estas duas enfiaram as presas por baixo do elefantezinho e ergueram-no até que as duas da margem o puderam arrastar para a terra, pondo-o fora de perigo. Uma das fêmeas, evidentemente a mãe do elefantezinho, aconchegou-o mais para si, gorjeando e dando gritinhos estridentes enquanto o cheirava todo com a tromba, ansiosa, conservando-se ele bem juntinho a ela, encolhido, ganindo e fungando água. Depois, contente por ver que o filho nada sofrera, a mãe pespegou-lhe um tremendo golpe com a tromba e, grunhindo de raiva, pô-lo para longe da água.

Um exemplo patético de pesar materno se registrou há algum tempo no Parque Nacional das Quedas Murchison. O Superintendente do parque, o coronel C. D. Trimmer, avistou um fêmea carregando nas presas um filhote recém-nascido, que sustentava com a tromba. O filhote estava morto. Durante três dias a elefanta-mãe andou com o pequeno cadáver, só o pousando no chão para beber água. Mais tarde foi vista sem o filhote, parada ao lado de uma árvore. Ali permaneceu vários dias, sem comer e avançando para quem quer que se aproximasse. Finalmente se foi. Trimmer veio a saber depois que ela cavara uma sepultura sob a árvore, onde enterrara o filhote.

Ao que parece, quase todos os elefantes são dotados desse característico instinto protetor. Um macho envelhecido demais para alimentar-se deixará o bando, talvez por ter-se tornado demasiado vagaroso para segui-lo nas longas marchas. Um ou dois elefantes de menos idade talvez o acompanhem. Os jovens defensores o advertirão dos perigos, empurrando-o delicadamente para onde esteja abrigado, voltando sem seguida para desafiar o inimigo. Os guardiães ficam em geral com o elefante envelhecido até ele morrer, o que pode ocorrer aos 60 anos.

Os elefantes se incluem entre os melhores nadadores de todos os animais terrestres. Sabe-se de uma caravana de 79 elefantes de carga asiáticos que atravessaram trechos inundados do Ganges nos quais tiveram que nadar seis horas sem pôr os pés no fundo do rio. Os elefantes asiáticos, cujas orelhas são muito menores do que as dos seus irmãos africanos, não raro se deixam domesticar, sendo utilizados para ajudar o homem em suas tarefas.

Um elefante necessita de muito pouco sono- cerca da metade do que necessita o homem- o que aliás é bom, porque ele precisa passar a maior parte do tempo procurando alimento. Para ingerir os 800 quilos de folhas e grama que constituem sua ração diária, ele precisa alimentar-se durante as 16 horas em cada 24. Além disso, precisa também estar constantemente à procura de água, pois necessita de 100 a 180 litros por dia.

É verdade que o elefante não esquece nunca. Uma das coisas de que ele sempre se lembra é o cheiro das pessoas. Dizem os observadores que, tendo sido perseguido por caçadores, o dentuço é capaz de, com a tromba, sentir a diferença entre o cheiro de um branco e o de um negro a duas milhas de distância. Sydney Downey conta o caso de um elefante solitário que ele perseguiu durante anos, no Norte do Quênia:

- Ele se alimentava em ziguezague, desviando-se ora para a esquerda ora para a direita, mas voltando sempre à própria trilha. Ali parava, farejava a terra com a tromba e, se não sentia nenhum cheiro, prosseguia. Se sentia o cheiro de um nativo na trilha, recuava para abrigar-se e ficar à espreita até certificar-se de que estava sem segurança. Se o cheiro era de branco, pateava com estrondo, enfurecido, e partia de carreira, percorrendo 80 quilômetros ou mais em linha reta. Ele sabia que espécie de armas portam os brancos.

O coronel Bruce-Smith, conhecido colono do Quênia, sustentava que os elefantes tanto se lembram do bem que lhe fazem como dos perigos por que passam. Certa vez ele capturou um pequeno elefante que tinha uma chaga feia numa das pernas traseiras. Bruce-Smith fez com que metessem o animal num cercado de troncos grossos, estreito demais para que ele pudesse mover-se, enquanto lhe tratou a ferida. À primeira ardência do antisséptico o elefante rugiu de dor e raiva, quase libertando-se da paliçada. Mas Bruce-Smith terminou o curativo e deixou-o sossegar. Após três ou quatro curativos o elefante passou a submeter-se ao tratamento com paciência, embora tivesse de continuar confinado para que não arrancasse os pensos. Afinal foi solto. Desde então, até ser embarcado para Nairóbi, o animal corria para Bruce-Smith toda vez que o via, tomava-lhe a mão na tromba e levava-a ao ponto em que houvera a feriada agora cicatrizada.

As grandes manadas de elefantes estão sendo exterminadas. Porém, nos parques nacionais da África os visitantes ainda podem ver por si mesmos que esses imprevisíveis animais na verdade se comportam muitas vezes como as próprias pessoas que os contemplam.




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Custo para os Elefantes se Refrescarem

Nicola Stead, Inside JEB



Elefante africano refresca-se em uma poça de lama no
Parque Nacional de Tsavo, Quênia (Foto: ©ElephantVoices)


Durante os quentes meses de verão, não há nada como um bom e refrescante mergulho numa piscina, e parece que os elefantes concordam com isso. De fato, em algumas áreas, os elefantes raramente afastam-se da água, e até mesmo têm sido chamados - ainda que haja controvérsias - de espécies dependentes da água.



Parque Nacional de Tsavo, Quênia (Foto: ©ElephantVoices)

Mas eles serão mesmo dependentes de água? E, se forem, o que os leva a essa dependência? Robin Dunkin, uma pesquisadora da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, E.U.A., explica que, apesar de os elefantes terem numerosos truques para se refrescarem, como, por exemplo, usar suas enormes orelhas como ventiladores, algumas vezes isso simplesmente não é suficiente. “Assim que a temperatura ambiente ultrapassa a temperatura corporal, essas formas não evaporativas de perder calor realmente não funcionam mais. Eles podem verdadeiramente ganhar calor através desses mesmos truques, e então acabam tendo que contar com o resfriamento por evaporação.” Muito embora os elefantes não possam usar a evaporação do suor para se refrescarem, Dunkin descobriu que sua pele parece ser mais permeável à água do que a maioria das peles de animais. Com a ajuda de sua supervisora, Terrie Willians, ela decidiu investigar se a capacidade de eles se manterem frescos seria um fator para a sua dependência da água e, se isso fosse verdadeiro, como o excesso de elefantes numa mesma área - o que causa danos - poderia ser potencialmente controlado, através do gerenciamento da disponibilidade de água. 


Parque Nacional de Tsavo, Quênia (Foto: ©ElephantVoices)

Dunkin começou medindo a quantidade de água que os elefantes perdem por evaporação de sua pele em uma gama variada de temperaturas, desde gelados 8° C até escaldantes 33° C. Para fazer isso, ela recrutou 13 elefantes treinados - africanos e asiáticos - de três zoos das redondezas. Dunkin mediu a perda de água por evaporação passando uma corrente de ar sobre suas peles e medindo a quantidade de água no ar antes e depois disso. 



Parque Nacional de Tsavo, Quênia (Foto: ©ElephantVoices)

Dunkin descobriu que, conforme a temperatura subia, a quantidade de água perdida por evaporação a partir da pele aumentava exponencialmente. Entretanto, Dunkin explica que ar quente pode carregar mais água e que isso, por si só, pode levar a uma maior evaporação. Dunkin observou que, mesmo fazendo as correções necessárias, a evaporação cutânea total ainda era elevada, a altas temperaturas. Depois de oferecer aos elefantes um refrescante e revigorante banho de chuveiro, Dunkin viu as taxas de evaporação subirem ainda mais – presumivelmente, os elefantes estavam usando essa fonte de água adicional para aumentar o resfriamento por evaporação. Acima de tudo, Dunkin também descobriu, que durante os meses de verão, os elefantes aumentam a permeabilidade de sua pele. Colocadas todas juntas, as descobertas de Dunkin sugerem que os elefantes estão mais preocupados em usar a água para se manterem frescos do que conservá-la, e que qualquer água extra, como a proveniente de rolar na lama ou a de tomar um banho, é agradavelmente aceita. 



Parque Nacional de Tsavo, no Quênia (Foto: ©ElephantVoices)

A seguir, Dunkin usou seus dados para demonstrar o quão importante era o resfriamento por evaporação para o controle térmico de um elefante. Até mesmo em baixas temperaturas, o resfriamento por evaporação tinha uma função, mas, quando as temperaturas alcançavam 29–32°C, essa era a única opção que restava para os elefantes se refrescarem. Nessas altas temperaturas, é como se eles ficassem dependentes de água para, praticamente, qualquer resfriamento. As descobertas de Dunkin sugerem que "a dependência da água é uma ideia muito simples, e está realmente vinculada ao clima. Então, eles estão ligados à água, mas a extensão disso depende do clima". Por exemplo, Dunkin estimou que um elefante no clima subtropical da África do Sul precisaria de apenas 22l de água por dia para se refrescar, enquanto que um elefante na semiárida savana da Namíbia precisaria de quase cinco vezes essa quantidade, incorrendo um débito de água de cerca de 100l por dia. Dunkin explica: “Entendendo como o clima leva os elefantes à dependência da água, podemos tornar acessíveis estratégias de melhor manejo para reservas que enfrentem problemas de alta concentração de elefantes em uma mesma área”. Porque, no final das contas, você pode ter uma quantidade excessiva de uma coisa boa, seja ela água ou elefantes.  



Parque Nacional de Tsavo, no Quênia (Foto: ©ElephantVoices)

Referências:

• Dunkin, R. C.,

• Wilson, D.,

• Way, N.,

• Johnson, K. and

• Williams, T. M.


(2013). O clima influencia o balanço térmico e o uso da água por elefantes africanos e asiáticos: fisiologia pode oferecer prognósticos de condução da distribuição dos elefantes. J. Exp. Biol. 216, 2939-2952. (2013). Climate influences thermal balance and water use in African and Asian elephants: physiology can predict drivers of elephant distribution. J. Exp. Biol. 216, 2939-2952.

Tradução, revisão e edição:  João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.