segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Elefante “fala” como um humano - e usa sua tromba para formar o som.

Elefante de zoológico sabe dizer “bom”, “não”, “olá” e “sente-se”, diz estudo científico. 


Shannon Fischer, para a National Geographic News
Publicado em 2 de Novembro de 2012
 


Koshik, o Elefante Asiático que sabe "falar" cinco palavras em Coreano, colocando sua tromba dentro da boca. Fotografado por Ahn Young-joon, AP

Há seis anos, um vídeo, enviado por funcionários perplexos do Everland Zoo, chegou à caixa de entrada da pesquisadora de comunicação de elefantes Joyce Poole, da ElephantVoices. A filmagem foi o primeiro olhar de cientistas sobre Koshik, o elefante que fala coreano.

“Isso é surpreendente”, escreveu Joyce na época, então subsidiada pelo Programa Conservation Trust, da National Geographic Society (a National Geographic News é parte da Sociedade). “Não consigo ver nenhuma chance disso ser uma farsa, com certeza é uma imitação de voz humana”. Ela enviou o vídeo a colegas. Alguém teria que checar o caso - poderia ser genuíno?


Seis anos depois, a confirmação finalmente chegou, através de um novo estudo liderado por um dos antigos colegas de Poole, Angela Stoeger, da Universidade de Viena. Koshik, afirma Stoeger, é definitivamente real. 


(Veja também “Baleia falante pode imitar voz humana”)


Um elefante com ouvido para idiomas


Para chegar a essa conclusão, Stoeger e seu time primeiro tiveram que verificar se os sons emitidos por Koshik eram palavras de verdade. De acordo com os tratadores do elefante, ele tinha um vocabulário de seis palavras, incluindo annyong ("olá"), aniya ("não"), anja ("sente-se"), and choah ("bom").


Então, a equipe mostrou 47 gravações das imitações a falantes nativos de Coreano que nunca tinham ouvido o elefante antes, e os instruíram a simplesmente anotar o que ouvissem. “Eles sabiam que estavam ouvindo um elefante, mas não sabiam o que supostamente deveriam ouvir”, explicou Stoeger, cujo estudo apareceu recentemente no jornal Current Biology.


Mas mesmo para os ouvidos humanos, as palavras eram prontamente compreedidas e transcritas. As vogais eram as mais fáceis de serem compreendidas, e quando um relatório contradizia o outro, as diferenças eram relacionadas a consoantes, com as quais Koshik ainda luta um pouco. 


“Não é 100%” certo, afirma Stoeger. “Mas ainda assim, se você não sabe absolutamente nada do que irá ouvir, é difícil até mesmo para entender o melhor papagaio que imita voz humana”.  


Para assegurar que não se trata de variações naturais dos chamados dos elefantes, os pesquisadores também compararam as palavras de Koshik com os sons típicos de elefantes asiáticos, e constataram que eram completamente diferentes. De qualquer modo, eram cópias exatas das entonações e frequências de seus treinadores, que os pesquisadores actreditam ser os objetos da imitações de Koshik.


O fato de que Koshik fala não é nada, comparado a como ele fala. Quando humanos fazem o som de o, eles espremem suas bochechas e pronunciam so lábios para frente, em formato circular. Os elefantes não possuem essa estrutura de bochechas e lábios - há muito tempo a trocaram por trombas. Desse modo, é anatomicamente impossível emitir esses sons.


Koshik resolve esse problema fixando a ponta de sua tromba em sua boca e movendo a parte de baixo de sua mandíbula, essencialmente, “fabricando”  uma ferramenta em seu trato vocal a partir de quase nada, como o personagem MacGyver. “Ele realmente desenvolveu um novo modo de produzir som”, afirmou Stoeger. “Naturalmente, elefantes asiáticos não fazem isso”. 


De fato, o único exemplo de comportamento animal que se aproxima da imitação que  Koshik faz com ajuda de uma ferramenta é o dos orangotangos, que adaptam a frequência de suas vocalizações com suas mãos ou com folhas.


“É realmente fascinante. Estou maravilhada. E entusiasmada”, afirmou Caitin O’Connell-Rodwell, uma especialista em comunicação dos elefantes da Universidade de Stanford que não estava envolvida no estudo.


A primeira evidência de que os elefantes podiam até mesmo fazer imitações vocais surgiu em 2005, e mostrou elefantes africanos imitando caminhões e barulhos de outras espécies de elefantes, ela disse. “Isso foi um começo”, O’Connel-Rodwell afirmou. “Mas agora trata-se de imitação entre espécies e a criação de uma vocalização muito mais difícil de ser emitida”. 


(Veja “Orca imita leão marinho, revelam gravações”)


O Elefante na Sala de Estar


Imitações vocais no reino animal são raridade, e imitações de falas humanas é algo ainda mais raro. Papagaios podem fazer isso, assim como pode uma foca chamada Hoover e uma beluga no Zoo de San Diego.


Pesquisadores acreditam que essa façanha exija não apenas os instrumentos vocais apropriados - ou uma engenhosa improvisação com a tromba -, mas também uma sociabilização com pessoas. Hoover, por exemplo, foi educada por um pescador, e a beluga teve seus treinadores.


Koshik começou suas imitações - ou pelo menos seus treinadores começaram a perceber suas imitações - quando tinha 14 anos de idade, depois de passar a maior parte de sua adolescência isolado de outros elefantes.


“Elefantes são animais altamente complexos, sociais e inteligentes, com personalidades individuais”, afirmou Joyce Poole, da ElephantVoices.  


“Eles são capazes de produzir uma incrível variedade de sons, em uma ampla gama de contextos”, afirma ainda Poole, que não esteve envolvida na recente pesquisa.


“Podemos nos questionar: Dada a extraordinária complexidade social e flexibilidade demonstrada, suas capacidades cognitivas significativas e suas capacidades físicas, por que deveríamos nos surpreender com o fato de imitarem sons de seu ambiente?


Leia aqui o artigo original, publicado na National Geographic.

Leia também: "A Comunicação Tátil dos Elefantes"

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